Da janela do avião, ela aparece de repente: um risco verde e marrom no meio de um azul que não acaba, com um morro em forma de dedo apontando pro céu. Uma hora de voo antes, a gente estava no aeroporto do Recife. Ao pousar, o relógio da ilha já estava uma hora na frente do nosso.
E tem mais: em Noronha não existe "a taxa". Existem duas cobranças diferentes, de órgãos diferentes, com regras diferentes. Entender isso antes de embarcar é metade da viagem. A outra metade é o mar, e ele merece cada centavo.
As duas cobranças (e por que não são a mesma coisa)
1. Taxa de Preservação Ambiental (TPA). É cobrada pela Administração do Distrito Estadual, por pessoa e por dia de permanência, de forma progressiva. Em 2026 o valor é de R$ 105,79 por dia, reajustado pelo IPCA (Brasilturis, jan/2026). Dez dias saem por R$ 901,39 (Esse Mundo É Nosso). Pague antes, pelo site oficial da Administração, e leve o comprovante. Ficou mais dias do que declarou? Cada dia extra sai pelo dobro (Portal de Prefeitura).
2. Ingresso do Parque Nacional Marinho (Parnamar). É do ICMBio, pago uma vez e válido por 10 dias. Desde novembro de 2025 custa R$ 192 para brasileiros e R$ 384 para estrangeiros, com reajuste anual pelo IGP-M (Diario de Pernambuco). É ele que libera Sancho, Leão, Sueste, Atalaia e as trilhas do parque. Compra no site oficial de ingressos.
Valores de 2026: confira antes, porque os dois reajustam todo ano (a TPA em janeiro, o ingresso em novembro).
Mar de dentro x mar de fora
A ilha tem dois humores. O mar de dentro é o lado virado para o continente: na maior parte do ano parece piscina, e é onde ficam Porto, Conceição, Boldró, Cacimba do Padre, Baía dos Porcos e Sancho. O mar de fora olha para a África, tem mais pedra, menos praia e mar mais mexido, com Leão, Sueste e Atalaia, todas dentro do parque e com horário de visita (Melhores Destinos). A virada: entre novembro e março, quando chega o swell, o mar de dentro ganha ondas e o de fora vira o lado calmo.
No dia da Praia do Leão, a gente filmou o mar de dentro e o mar de fora no mesmo passeio. Melhor aula de geografia que existe, e sem prova no final.

Baía do Sancho: escada ou barco
A Baía do Sancho foi eleita pela sétima vez a melhor praia do mundo no Travellers' Choice do Tripadvisor, na edição de 2025 (Portal de Prefeitura). E dá para chegar de dois jeitos:
- Por terra: uma passarela de madeira leva aos mirantes e é acessível. O trecho final é uma escada estreita e íngreme, encaixada numa fenda da rocha, até a areia. Exige perna e atenção, e pode ficar mais difícil conforme o mar.
- De barco: os passeios autorizados param na baía para o mergulho, sem descer escada nem pisar na areia.
A gente chegou cedo, perto das 9h30, e lá embaixo a praia estava quase só pra nós. Leve água: não tem estrutura de venda.
Praia do Leão
No mar de fora, a Praia do Leão é a principal área de desova de tartarugas da ilha, com temporada de dezembro a junho (Brasilturis, out/2026). Por isso a permanência tem horário (até as 17h, segundo o Melhores Destinos) e não há barraca, cadeira nem sombra. O mesmo guia informa que o banho de mar está restrito por causa de tubarões, e que as piscinas na maré baixa são só para contemplação. Confirme a regra do dia no posto do ICMBio na entrada. O que a gente guardou de lá: areia sem fim e água de um azul difícil de acreditar.
Pôr do sol de barco e canoa ao amanhecer
O pôr do sol de Noronha acontece do lado do mar de dentro. Dá para ver da areia (Cacimba do Padre, Boldró, Conceição) ou embarcar num passeio de barco ao entardecer, que vai para mar aberto (Brasilturis). Foi o que a gente fez no primeiro dia, e o céu fez questão de caprichar.
Na outra ponta do dia está a canoa havaiana: sai da Praia do Porto, dura cerca de duas horas, leva até seis pessoas com o guia e passa pela Ponta da Air France, onde o mar de dentro encontra o de fora. O horário do amanhecer é o mais indicado para ver golfinhos-rotadores (Melhores Destinos). Atenção: todo mundo rema. No nosso último dia, a Ju assumiu o comando.
Trilhas: agendamento obrigatório
As trilhas dentro do parque (Capim-Açu, Enseada dos Abreus, Piscina da Atalaia, Pontinha-Caieira, Atalaia-Pontinha-Caieira e Morro São José) pedem ingresso + agendamento na plataforma do parque ou no Centro de Visitantes. As vagas são limitadas, e algumas exigem condutor credenciado. A trilha Golfinho-Sancho é livre de agendamento, só com o ingresso. Costa Azul, Costa Esmeralda e Piquinho ficam na APA e não pedem ingresso (Melhores Destinos). Agende assim que comprar a passagem.
Fuso, dinheiro e locomoção
- Fuso: Noronha está 1 hora à frente de Brasília (CVC). Isso pesa no horário de passeio marcado e no do voo de volta.
- Dinheiro: leve dinheiro vivo. Nem todo lugar aceita cartão e sacar na ilha não é simples (CVC).
- Locomoção: ônibus coletivo barato, buggy ou carro alugado e táxi. Nos passeios guiados, o transporte até o ponto de encontro normalmente está incluído (Brasilturis).
O que ninguém te conta
- TPA e ingresso não se confundem. Uma é do governo de Pernambuco e cobra por dia; o outro é do ICMBio e vale 10 dias. Quem paga só um descobre isso na entrada do Sancho.
- Acerte o relógio no desembarque. Com uma hora a mais, quem marca canoa "às 6h" pelo horário de casa perde o barco.
- A tábua de marés manda. Piscinas naturais e trilhas são liberadas pelo ICMBio conforme a maré. A tábua oficial é a da Marinha.
- Não toque em tartaruga nem persiga golfinho. É crime ambiental, com multa. E drone dentro do parque, só com autorização para pesquisa (Brasilturis).
- Escada do Sancho sem pressa. Mãos livres (mochila nas costas) e chinelo que não escorrega.
