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Jalapão: guia completo de fervedouros, dunas e cachoeiras (com o nosso roteiro de 5 dias)

Um "deserto" no Cerrado que tem poço onde ninguém afunda, cachoeira de água morna e uma regra que muda tudo: sair antes de todo mundo.

Onde
Jalapão, leste do Tocantins
Quando fomos
abril/maio de 2025
Leitura
8 min
Atualizado
out/2026
Jalapão10.55°S
46.42°O
dunas no fim de tarde com a serra ao fundo

A Ju ama cachoeira, mas entra em toda cachoeira do mesmo jeito: encolhida, prendendo a respiração, esperando o choque da água gelada. No Jalapão, embaixo da Cachoeira do Formiga, ela esperou o choque. Não veio.

E esse nem foi o fenômeno mais estranho da viagem. Algumas horas antes, a gente tinha tentado afundar num poço de água azul e simplesmente não conseguiu. Sem boia, sem truque: é a água que sobe do fundo com tanta pressão que segura o corpo. Esse é o fervedouro, a estrela do Jalapão, uma região de dunas laranjas no meio do Cerrado que, apesar da cara de deserto, é cheia de água. Abaixo, tudo o que a gente aprendeu para você planejar a sua.

O que é o Jalapão (e por que tem tanta água)

O coração da região é o Parque Estadual do Jalapão, criado em 2001, com cerca de 159 mil hectares entre Mateiros e São Félix do Tocantins, administrado pelo Naturatins. O nome vem da jalapa, uma planta comum por ali.

As dunas nascem da Serra do Espírito Santo: o vento arranca areia do arenito da serra e acumula tudo ao pé dela (Olhar Digital). E a água? Vem do Aquífero Urucuia, que alimenta mais de 100 fervedouros (UAI).

Fervedouros: quais conhecemos e as regras

Num só dia fizemos três fervedouros em Mateiros e, no dia seguinte, o Bela Vista, em São Félix:

  • Ceiça (Mateiros): o primeiro aberto ao público, com um túnel de bananeiras na entrada.
  • Um fervedouro entre buritis, com deck de madeira. Lindo, e a gente não guardou o nome. Sim, a gente sabe.
  • Buritis (Mateiros): visto de cima, tem formato de coração.
  • Bela Vista (São Félix): apontado como o maior aberto à visita, com uns 15 m, e com a melhor estrutura (Vamos Trilhar).

Regras que valem para quase todos (Vamos Trilhar; Mala de Aventuras): - Proibido entrar com protetor solar, repelente, hidratante ou maquiagem. - Grupos de até 10 pessoas por vez (em alguns, 4 ou 6). - De 10 a 20 minutos dentro do poço, controlados por quem cuida do local. - Não pise nas bordas nem pule de cabeça: a areia do fundo desmorona. - Os fervedouros ficam em propriedades privadas e cobram entrada, em geral de R$ 20 a R$ 30 por pessoa (referência 2026, confira antes).

Vini e Ju no Fervedouro do Ceiça

Dunas, cânion e cachoeiras

  • Dunas do Jalapão: fomos no fim da tarde para ver o pôr do sol com a Serra do Espírito Santo ao fundo. Pelas regras do Naturatins, só com guia e agendamento, até 500 pessoas por dia, entrada das 14h às 17h30 no período da tarde (Catraca Livre).
  • Cânion Sussuapara: paredões de mais de 10 m perto de Ponte Alta (Viagens e Caminhos). Às 8h estava quase vazio.
  • Pedra Furada: arco de arenito em Ponte Alta. A trilha foi de capacete, como pediu o guia.
  • Lagoa do Japonês (Pindorama do Tocantins): água verde-esmeralda a azul-turquesa. O nome vem de um senhor de origem oriental que morava no caminho (Vamos Trilhar).
  • Prainha do Rio Novo: o Rio Novo é apontado como um dos últimos rios do Brasil com água potável (Vamos Trilhar).
  • Cachoeira do Formiga: verde-esmeralda, rasa (cerca de 2 m no ponto mais fundo) e de água morna (Vamos Trilhar). Foi a do susto que não veio.
  • Cachoeira da Velha: não estava no nosso roteiro, mas é um clássico. São cerca de 15 m de queda e 100 m de largura no Rio Novo, em formato de ferradura dupla, vista de uma plataforma de madeira. Banho ali não, pela força da água (Melhores Destinos).

Nosso roteiro dia a dia

Os horários saíram dos metadados das nossas fotos.

  1. 29/04, Palmas: chegada e, por conta própria, barco no lago com pôr do sol na Ilha Canela.
  2. 30/04: Pedra Furada às 10h, Lagoa do Japonês à tarde. Noite em Ponte Alta.
  3. 01/05: Sussuapara às 8h, Prainha do Rio Novo às 11h, dunas no fim da tarde. Noite em Mateiros.
  4. 02/05: Ceiça às 8h20, o fervedouro do deck às 9h20, Buritis às 11h07 e Formiga na hora do almoço. Noite em São Félix.
  5. 03/05: tucanos no quintal ao acordar, Bela Vista às 8h, uma parada numa cachoeira na estrada e volta para Palmas.

De pacote ou por conta? E a tal da 4x4

A gente foi com a agência Jalapão 100 Limites, numa 4x4 com outro casal que virou amizade da viagem. Carro, guia, pousadas (simples, quartos amplos, limpos e bom banho, em Ponte Alta, Mateiros e São Félix) e todas as refeições estavam incluídos. Recomendamos muito: organizada, guia excelente e tudo bem planejado.

Por conta, só com 4x4 e experiência em areia fofa: carro comum atola, principalmente na seca (Melhores Destinos). Lembre também que dunas e Serra do Espírito Santo exigem guia ou condutor local credenciado de qualquer jeito (Catraca Livre). Como referência de 2026, a diária de uma 4x4 gira em torno de R$ 550, e pacotes de 5 dias saindo de Palmas ficam entre R$ 3 mil e R$ 6 mil por pessoa (Mala de Aventuras). Confira se as entradas estão incluídas.

Taxas oficiais

Desde 1º de maio de 2026, a Prefeitura de Mateiros cobra uma taxa de sustentabilidade de R$ 30 por pessoa, válida por até 8 dias, paga por Pix ou transferência. Crianças até 10 anos, maiores de 65 e pessoas com deficiência são isentos (Panrotas). Valor de 2026: confira antes, e pergunte à agência se já está no pacote. Em 2025, quando fomos, ela ainda não existia.

O que comer

Comida simples, de interior, com tempero ótimo e gosto de casa. Vale provar a paçoca de pilão (carne de sol socada com farinha, herança dos tropeiros), o arroz com pequi, o chambari e o peixe na folha de bananeira (Estado de Minas).

Para entender o lugar

  • Por que ninguém afunda no fervedouro: a água subterrânea sobe com pressão pela areia do fundo e, somada ao empuxo, sustenta o corpo parcialmente submerso (Revista Oeste).
  • O artesanato de capim dourado tem lei (Lei estadual 3.594/2019): a colheita só pode ser feita de 20 de setembro a 30 de novembro, com licença do Naturatins (Conexão Tocantins). Foi na comunidade quilombola Mumbuca, em Mateiros, que essa tradição começou (Diário do Turismo).

O que ninguém te conta

  • Faça a ordem inversa. A dica foi do nosso guia: sair antes dos outros carros e começar pelo fervedouro que todo mundo deixa para depois. Pegamos Ceiça e Buritis sem fila.
  • Dinheiro vivo salva. Cartão e Pix falham sem sinal. A gente precisou de empréstimo do casal amigo e acertou depois por Pix, na pousada.
  • Baixe tudo offline. Mapa, música, playlist da estrada. Sinal só nas cidades, e olhe lá.
  • Proteção sem protetor. Como o protetor é proibido nos fervedouros, chapéu e camiseta com proteção UV resolvem. Repelente fica para trilha e noite, longe da água.
  • Água sempre à mão: pelo menos 1 litro por pessoa (Vamos Trilhar), chinelo para os banhos e tênis para as trilhas.
  • Guarde uns dias para depois. O pacote termina em Palmas, e a cidade com Taquaruçu rende muito mais do que uma noite antes do voo. A gente ficou mais alguns dias e conta tudo no post sobre Palmas e Taquaruçu.