Amorinhosno mapa

Serra da Canastra: cachoeiras, queijo e a nascente do Rio São Francisco

Um fiozinho d'água, uma queda de 186 metros e uma rota de queijo que a UNESCO reconheceu: tudo no mesmo pedaço de Minas.

Onde
São Roque de Minas e Vargem Bonita (MG)
Quando fomos
maio/2026
Leitura
8 min
Atualizado
out/2026
Canastra20.25°S
46.37°O
nascente, 27/05

Era de manhã e a gente estava parado na frente de um poço pequeno, cristalino, cercado de capim. Nada de estrondo, nada de correnteza. Uma placa dizia, sem cerimônia: "Você está na nascente do Velho Chico".

Esse fiozinho é o começo de um rio de cerca de 2.800 km que atravessa Minas, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. E poucos quilômetros depois ele já despenca 186 metros na Casca d'Anta. Foi assim o primeiro dia dos nossos 5 na Serra da Canastra: começando pelo começo de tudo.

O parque nacional: o que é de graça e o que é pago

O Parque Nacional da Serra da Canastra foi criado em 1972 e é administrado pelo ICMBio. A entrada no parque é gratuita, e ele tem 4 portarias, abertas das 8h às 18h (Viagens e Caminhos):

  1. Portaria 1, em São Roque de Minas (a principal, a 8 km da cidade)
  2. Distrito da Serra da Canastra
  3. Sacramento
  4. Portaria 4, a da parte baixa da Casca d'Anta, no distrito de São José do Barreiro

O acesso de carro vai até as 16h. Uma estrada de 60 km cruza o parque de ponta a ponta, com limite de 40 km/h, e o site de turismo local recomenda evitar chegar entre 10h e 14h, quando as filas na portaria são maiores (serradacanastra.com.br).

O que é pago são os atrativos particulares, fora do parque: Cerradão e Capão Forro, por exemplo. Cada um tem seu ingresso.

As cachoeiras que a gente fez

Casca d'Anta por baixo

Com cerca de 186 metros, é a maior queda do Rio São Francisco. Tem parte alta e parte baixa, e a gente escolheu a baixa. Passamos o começo da tarde de 28/05 sentados nas pedras em frente ao poço, e foi um dos nossos momentos favoritos da viagem.

  • Acesso: pela Portaria 4, a cerca de 22 km de Vargem Bonita e 37 km de São Roque, por estrada de terra que carro de passeio encara fora da época de chuva (Viagens e Caminhos).
  • Trilha: quase plana, cerca de 3 km ida e volta até o poço.
  • Banho: na base da queda é proibido, pelo risco de afogamento. Os poços do rio ao longo da trilha são os indicados (O Diário de um Viajante).
  • A parte alta sai pela Portaria 1 e tem trilha bem mais puxada. Quem quiser ligar as duas partes precisa de pelo menos 5 horas de luz (serradacanastra.com.br).

Cachoeira do Cerradão

Fica numa RPPN, reserva particular criada em 2001, perto de São Roque. A queda principal tem 118 metros, segundo medição de 2025 do próprio site, e há outras menores no caminho. A gente chegou na hora do almoço de 29/05 e passou a tarde inteira no poço da queda em degraus, sem a menor vontade de ir embora.

  • Cobra entrada (tabela no site oficial).
  • Entrada recomendada entre 9h e 15h; saída até 17h.
  • Proibido bebida alcoólica, churrasqueira e material de pesca.

Nascente e Rasga Canga

A nascente histórica fica dentro do parque, no alto da serra, acessada pela Portaria 1. Curiosidade: estudos mais recentes apontam uma nascente geográfica no rio Samburá, em Medeiros, e hoje as duas são citadas. No mesmo dia, passamos pelo Curral de Pedras e pela Rasga Canga, cachoeira dentro do parque com trilha curtinha até a queda (Viciada em Viajar).

Complexo Capão Forro

Fora do parque, a uns 5 km de São Roque, com só 1 km de terra. São várias quedas ligadas por trilha de cerca de 1 km, com estrutura de banheiro e camping, e cobra entrada (Viagens e Caminhos; Prefeitura de São Roque). Foi lá, no dia 31/05, que a gente atravessou a trilha cor-de-rosa. Já explicamos.

Casca d'Anta parte baixa

O capim rosa (parece flor, mas não é)

No fim de maio, os campos perto do Curral de Pedras e a trilha do Capão Forro estavam tingidos de rosa. Lindo. E com uma pegadinha: o mais provável é que seja o capim-gordura, uma gramínea africana que virou invasora no Cerrado. A identificação foi por comparação, então fica o "provável". Fotografa, mas não colhe nem espalha semente.

Rota do queijo

O modo artesanal de fazer queijo de Minas é patrimônio do Brasil desde 2008 e, desde dezembro de 2024, Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO. A gente visitou quatro produtores:

  • Roça da Cidade (Estrada Parnacanastra, km 2): queijaria com deck virado pra serra e varal de luzes. Fechamos o primeiro dia ali, com vinho, um tucano no galho e o cachorro da casa de companhia. Dica: chegue antes das 17h pra pegar a luz dourada e mesa no deck.
  • Estância Capim Canastra: degustação na manhã de 29/05. Queijo premiado no Mondial du Fromage de 2015.
  • Queijaria Talismã e o queijo do Zé Mário, na manhã de 30/05, perto de São Roque.

Nossa dica: prove em quantas queijarias der. O sabor muda de uma pra outra (pasto, raça da vaca, jeito de tirar o leite, umidade, calor da cura), e a conversa com os produtores, que recebem a gente em casa, é metade da experiência. Leve dinheiro vivo.

E no jantar de 29/05, no Caipirão da Canastra, teve macarrão flambado dentro do queijo. Sim, dentro.

Bichos pelo caminho

Carcará no cupinzeiro, tucano no fim de tarde e seriema passeando no pasto da pousada. Lobo-guará e tamanduá-bandeira, que vivem no parque (serradacanastra.com.br), ficaram pra próxima: os dois costumam aparecer no começo e no fim do dia. Quem curte aves pode baixar o guia de aves do parque, do ICMBio.

Como se locomover

  • Carro é obrigatório. A gente alugou um carro de passeio e ele deu conta de tudo que fizemos.
  • Estrada de terra é a regra: fora as ruas da cidade, quase todo acesso é de terra. Na seca tem poeira; na chuva vira lama e complica pra carro comum (Viagens e Caminhos).
  • 4x4 só pro Fundão. A estrada da Cachoeira do Fundão tem trechos intransitáveis pra carro baixo; dá pra ir com agência. A gente não fez essa parte.
  • Bases: São Roque de Minas (Portaria 1, nascente, queijarias) e Vargem Bonita (parte baixa da Casca d'Anta).

Onde ficamos

No Refúgio Pé da Serra, perto de São Roque de Minas. Café da manhã com queijo da região, pão de queijo, café coado e seriema no pasto. A gente recomenda.

Nosso roteiro de 10 dias: Canastra + Capitólio

Dia 1 (27/05): nascente do São Francisco, Curral de Pedras, Rasga Canga e pôr do sol na Roça da Cidade. Dia 2 (28/05): letreiro de Vargem Bonita e parte baixa da Casca d'Anta (Portaria 4). Dia 3 (29/05): degustação na Estância Capim Canastra e tarde no Cerradão. Dia 4 (30/05): café sem pressa e degustação na Queijaria Talismã. Dia 5 (31/05): trilha de capim rosa, Cachoeira da Mata e Capão Forro; à tarde, centro de São Roque. Dia 6 (01/06): estrada até Capitólio, com parada em Piumhi. Dia 7 (02/06): Mirante dos Canyons e fim de tarde em Escarpas do Lago. Dia 8 (03/06): Cachoeira da Coca e Cachoeira Beija-Flor. Dia 9 (04/06): Lagoa Azul de manhã e banho no Lago de Furnas. Dia 10 (05/06): Barragem de Furnas e almoço de costela. Capitólio fica a cerca de 90 km de São Roque de Minas (Melhores Destinos). A segunda metade está no nosso post de Capitólio.

O que ninguém te conta

  • O parque é de graça; as cachoeiras particulares, não. Separe dinheiro: tem lugar sem sinal pra cartão ou Pix na entrada.
  • Carro entra no parque só até as 16h. Planeje a Casca d'Anta pela manhã ou começo da tarde: no fim do dia, as cachoeiras perdem o sol.
  • Não dá pra nadar na base da Casca d'Anta. Os poços ao longo da trilha da parte baixa compensam.
  • O rosa dos campos é bonito, mas é invasor. Contemple, não leve.
  • Prove queijo de produtores diferentes. Cada fazenda tem um sabor, e o produtor conta a história de cada peça.
  • Choveu? Repense o carro baixo. Na estação das chuvas, as estradas de terra viram outra conversa.