Eram 18h10 na Praia de Camburi quando a cidade inteira pareceu parar. Os corredores diminuíram o passo, os celulares subiram e, do lado do mar, uma bola laranja começou a sair da água, grande demais para ser verdade.
Era verdade, só que com um detalhe que a gente descobriu depois: era a última superlua de 2024, a Lua do Castor, que chegou ao auge às 18h28 daquele 15 de novembro. A gente tinha pousado em Vitória poucas horas antes. Primeiro dia, e a cidade já tinha mostrado o truque mais bonito. Os outros quatro dias foram de descobrir o resto: que dá para conhecer quase tudo sem carro, que moqueca se come de avental e que um almoço bom demais pode custar um Buda de 35 metros.
Vitória a pé e de Uber
A primeira surpresa: Vitória é uma capital-ilha, cercada por um arquipélago de dezenas de ilhas, e as distâncias são curtas. Nós não alugamos carro e não sentimos falta. Base na Praia do Canto, pés na calçada e Uber para o que ficava mais longe.
O roteiro que fizemos, nessa ordem:
- Píer de Iemanjá, em Camburi. A estátua é do escultor grego Iannis Zavoudakis e está ali desde 1988 (Prefeitura de Vitória). Fim de tarde é o horário certo.
- Ilha do Frade, a pé. Saímos da Praça do Iate e cruzamos a ponte caminhando. O nome vem dos frades beneditinos do século XVII; hoje é bairro residencial, com costão de pedra, mar azul-esverdeado e uma pracinha com lago e gansos que ninguém espera encontrar ali.
- Farol Santa Luzia, em Vila Velha (de Uber). Um farol de 14 m com peças de ferro trazidas de Glasgow em 1870-1871, no alto da Praia da Costa. Ao lado, descendo as pedras, ficam as prainhas escondidas (Praia Secreta e Praia do Ribeiro). Vale ir no meio da tarde.
- Ilha do Boi. Ganhou esse nome depois que um navio que levava gado naufragou por ali. Tranquila, com prainhas e a vista mais fotogênica da Terceira Ponte.
- Curva da Jurema. Praia urbana com quiosques e cafés, nome ligado à Cabocla Jurema. A gente almoçou no Clericot Café, pé na areia.
Carro só faz diferença para bate-voltas mais longos, como Ibiraçu.
Onde ficar: os bairros
Ficamos no Comfort Suites Vitória, na Praia do Canto: quarto amplo, café da manhã farto, piscina e uma localização que resolveu a viagem a pé. Da janela, a baía e o bairro inteiro.
- Praia do Canto: o mais nobre e o mais prático, perto do Triângulo das Bermudas (o quadrilátero de bares e restaurantes).
- Camburi e Jardim da Penha: orla longa com calçadão e ciclovia, opções mais em conta (Mala de Aventuras).
- Enseada do Suá: moderno, entre a Praia do Canto e o Centro.
- Ilha do Boi: sossego e vista, com o Hotel Senac.
Camburi e a superlua
A Praia de Camburi tem cerca de 6 km e é a única praia de Vitória no continente. É o quintal da cidade: corrida de manhã, quiosque à tarde, lua à noite. Naquele dia a lua estava a 361.867 km da Terra, até 14% maior e 30% mais brilhante que uma lua cheia comum (NPR).
Curiosidade que a gente adora contar: a lua parece gigante perto do horizonte, mas é ilusão do cérebro. Estique o braço na próxima lua cheia: a unha do dedo cobre ela inteira.
(E sim, foi ali que o namoro ficou oficial. Mas o post é sobre a lua.)
Moqueca capixaba e as panelas de Goiabeiras
Na primeira noite fomos ao Pirão, na Rua Joaquim Lírio, 753, um clássico da Praia do Canto desde 1982. Chegou, ganhou avental. A moqueca veio borbulhando na panela de barro, com arroz, pirão e moqueca de banana-da-terra.
A diferença para a baiana é o que falta: a capixaba não leva dendê nem leite de coco. A cor vem do urucum, e o peixe é o protagonista. Por aqui o ditado é direto: "moqueca é capixaba, o resto é peixada".
Outros endereços indicados por chefs (A Gazeta): o São Pedro, na Praia do Suá, o primeiro a servir moqueca na panela de barro, desde 1952; o Papaguth, de frente para a baía; e o Enseada Geraldinho. Para siri e sururu com pôr do sol, a Ilha das Caieiras.
E a panela? Ela nasce em Goiabeiras, feita à mão, sem torno, com argila do Vale do Mulembá, queimada a céu aberto e tingida com tanino do mangue. O ofício das paneleiras foi o primeiro bem registrado no Livro dos Saberes do Iphan, em 2002, e envolve mais de 120 famílias. No Galpão das Paneleiras dá para ver a modelagem e a queima e comprar direto das artesãs. Os horários publicados variam entre as fontes (governo do ES: seg a sáb, 8h às 17h; ES Brasil: até 18h30 e domingo até 15h), então ligue antes: (27) 3327-0519.
Convento da Penha, em Vila Velha
Do alto de um morro de Vila Velha, o Convento da Penha vigia a baía desde 1558. A Festa da Penha, celebrada desde 1570, reúne cerca de 1 milhão de pessoas e é uma das maiores festas religiosas do Brasil.
Confissão: a gente não subiu (ficou para a próxima). Mas, para você não repetir o erro, o básico segundo A Gazeta (2025): - Visitação diária, das 6h30 às 16h, com entrada gratuita (no verão o horário costuma ser ampliado). - Subida a pé pela Ladeira da Penitência, de van (ida e volta a R$ 7 em 2025) ou de trenzinho nos fins de semana. - Endereço: Rua Vasco Coutinho, Prainha, Vila Velha. Combina bem com o Farol Santa Luzia no mesmo dia.
O perrengue do Buda
Fomos durante a ES Restaurant Week e escolhemos o Tantra Vitória, beach club na areia de Camburi (Av. Dante Michelini, 4170). Gostamos tanto que jantamos lá num dia e voltamos para o almoço no outro. Prato de frutos do mar indicado pela casa, sobremesa, brinde, mar... e quando olhamos o relógio, o passeio para o Grande Buda de Ibiraçu já tinha ido.
O que perdemos: o Grande Buda, com 35 m sem a base, maior que o Cristo Redentor, esculpido por Genésio Gomes de Moura e família, ao lado do Mosteiro Zen Morro da Vargem, o primeiro mosteiro zen-budista da América Latina. Fica na BR-101 Norte, km 217, a cerca de 66 km de Vitória. A Praça do Torii, onde está o Buda, é aberta todos os dias e gratuita; a visita ao mosteiro tem regras próprias, então confira antes.
Moral da história: Buda de manhã, almoço longo depois.
Curiosidades rápidas
- Capixaba vem do tupi kapixaba, "roça" (governo do ES).
- A Terceira Ponte, de 1989, tem 3,3 km e vão central a cerca de 70 m de altura (Wikipédia).
- Vitória foi fundada em 8 de setembro de 1551, e o nome é de batalha: lembra a vitória dos colonizadores sobre os indígenas na disputa pela ilha (Wikipédia).
- A orla de Camburi, a Ilha do Frade e a Ilha do Boi ficam a poucos minutos uma da outra.
Para entender o lugar
- Vitória é a terceira capital mais antiga do Brasil (Prefeitura de Vitória), e o município soma 33 ilhas e uma porção continental, em cerca de 93 km² (Canal Rural).
- O Palácio Anchieta, sede do governo do estado, começou como o colégio jesuíta de São Tiago, erguido a partir de 1570, e guarda desde 1922 o túmulo simbólico do padre José de Anchieta (Governo do ES). A visita guiada é gratuita, de terça a domingo (A Gazeta).
- O Porto de Tubarão, inaugurado em 1966, foi projetado para navios de até 150 mil toneladas, quando a maior parte da frota mundial não passava de 60 mil. O primeiro navio a atracar levou 20 mil toneladas (Vale).
O que ninguém te conta
- Sem carro funciona. Dormindo na Praia do Canto, a gente usou Uber só para Vila Velha, Ilha do Boi e Curva da Jurema.
- Atravesse para a Ilha do Frade a pé de manhã: é o melhor passeio grátis da cidade.
- Festival muda a agenda. Em semana de Restaurant Week, reserve mesa e não marque passeio depois do almoço.
- Faça farol e convento no mesmo dia. Ficam no mesmo pedaço de Vila Velha.
- Compre a panela no galpão, não na loja de souvenir: o dinheiro vai direto para quem faz.
Links úteis
- Prefeitura de Vitória: monumentos culturais
- Culinária capixaba (governo do ES)
- Associação das Paneleiras de Goiabeiras
- Convento da Penha
- Festa da Penha (Prefeitura de Vila Velha)
- Mosteiro Zen Morro da Vargem e o Grande Buda
- Comfort Suites Vitória
- Mapas: Píer de Iemanjá · Ilha do Frade · Farol Santa Luzia · Galpão das Paneleiras · Convento da Penha · Grande Buda de Ibiraçu
